Pet Smile

On 16 de julho de 2012 by Lebeh Brecho

O texto de hoje é de uma cliente muito querida. Li o texto no site: www.acorrentedobem.org e ela, super fofa como sempre, permitiu a publicação aqui. Vale muito a pena ler! Super lindo!

 

Rainbows Bridge, um céu canino

Por Stella Kochen Susskind*

O que está no cerne do movimento A Corrente do Bem? Qual é o sentimento que une pessoas dos quatro cantos do planeta no Dia Mundial da Boa Ação, fazendo com que cada indivíduo queira se engajar? O que me fez escolher também este caminho? Creio que a resposta esteja na minha própria história familiar, no início do século passado, quando os meus avós fugiram da Polônia escapando da perseguição nazista que vitimou 6 milhões de judeus – embora países como Irã neguem a existência do Holocausto! Meus avós chegaram ao Brasil sem nada; sem bens ou parentes, já que muitos foram mortos nos campos de concentração. Eles chegaram sem falar a língua portuguesa e desembarcaram sem seus nomes originais. O nome correto de Szyja Kochen, meu avô, era Szyja Cohen – o sobrenome foi alterado na imigração. Meus avós eram pessoas generosas, humildes, solidárias. Szyja foi a primeira pessoa a dar crédito a um comerciante em início de carreira, um certo senhor Samuel. Com o projeto de abrir um comércio e sem capital, Samuel pediu ajuda ao amigo imigrante. Com esta ajuda, conseguiu abrir sua primeira loja. Samuel Klein – esse era o nome completo do amigo do meu avó –, fundou a Casas Bahia.

Meu avô materno, Chiel Cymes, era de uma doçura que encantava todos os que o conheciam; pessoas que até hoje se comovem ao lembrar dele. Com ele, aprendi diversas lições e herdei muitas de suas características. Meu avô amava os animais. Eu, a neta-xodó, convenci-o – e a vovó Helena – a adotar uma gatinha de rua. Costumavam dizer que, dessa forma, eu passaria o final de semana inteiro com eles… Tinha um pouco de verdade, mas o fato é que se apaixonaram por Princesa. Com meu avô Cymes, minha avó Helena e meu pai Rubens aprendi a amar os animais. Mas a lição mais bonita e inesquecível que o meu avô me passou foi a superação. Embora tenha perdido pais, irmãos, avós e outros parentes assassinados pelos nazistas, nunca reclamou de nada; só distribuiu amor e carinho. Ele poupava todos de qualquer sentimento ruim.

Assim como minha avó Helena, era um homem belíssimo e vaidoso. Tinha cabelos prateados que combinavam com seu Opala prateado. Mas o destino lhe pregou uma peça – a esclerose múltipla. A doença foi cruel com meu avô. Primeiro lhe tirou os movimentos das mãos e depois das pernas, até atingir os órgãos vitais. Aquele homem vaidoso passou a depender da minha avó – e da fiel escudeira, Landa – para tudo. Não podia ao menos coçar o nariz. Reclamou de alguma coisa ou do seu destino? NUNCA! A sua generosidade não permitia que causasse algum sofrimento a alguém. No último dia de sua vida, fui visitá-lo na UTI. Estava com respiração artificial, quase sem forças. Ao me ver, fez um gesto para a enfermeira, pediu que ela retirasse a máscara porque queria falar comigo. Aproximei-me e ele, com toda a doçura do mundo, sussurrou ao meu ouvido com seu lindo sotaque polonês: queridinha, como estão as suas cachorras? Chiel Cymes não queria me ver sofrer. Morreu algumas horas depois. Com ele, aprendi a ser generosa, a acolher quem precisa; ser humilde e poupar os outros do sofrimento. Levo Chiel Cymes no meu coração, na minha alma e no meu corpo – o seu nome está tatuado no meu braço; tatuagem que me permite lembrar das minhas origens.

Minhas avós e minha mãe eram generosas; sempre se envolviam com causas sociais. O meu pai, desde pequeno, recolhia animais na rua. Com esta carga genética, eu já tinha um caminho traçado; um caminho que me levou ao Rainbows Bridge. Os animais sempre me fascinaram! Incentivada por meu pai, Rubens Kochen, e por meu avô Chiel, desde pequena recolhia gatinhos abandonados, cachorros vira-latas, passarinhos que caiam dos ninhos… Cresci em um ambiente feliz cercada de animais. A criança que amava animais, obviamente se transformou em uma mulher que ama os animais. Mas eu sentia uma necessidade de unir este amor à caridade. Mas como ir além?

A resposta veio de Deus, por meio de um artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 2000. O artigo falava sobre terapia mediada por animais, em especial, de um projeto voluntário chamado Pet Smile, fundado pela veterinária Hannellore Fuchs. Passei o dia lendo aquele artigo no escritório. Li, reli, olhei as fotos. O artigo narrava cenas e mostrava fotos que inundaram a minha alma. Crianças com câncer, acariciando coelhos; idosos abraçados a cachorros; pessoas com deficiência levando cachorros em suas cadeiras de rodas; crianças fazendo hemodiálise, segurando um pequeno aquário com um peixinho Beta. Enquanto eu babava e olhava, senti-me observada. Olhei para baixo e vi que Max, meu cachorro, não tirava os olhos de mim – por anos, tive o privilégio de levar o Max para o trabalho. Eram quase 20 horas.

— Max, você está lendo minha alma? Você quer encarar esta comigo?, perguntei em voz alta.

No dia seguinte, descobri o telefone da dra. Hannellore. Liguei e fui atendida na hora! Conversamos por quase uma hora. Ela logo me avisou: “minha filha, este projeto não serve para todos. Preciso conhecê-la pessoalmente e conhecer o Max. Há cachorros que não servem para o projeto, assim como donos! Vocês precisam passar por uma entrevista”. Tenho que confessar que esta primeira conversa foi um pequeno balde de água fria. Como esta senhora duvida de mim e do Max? Como ela ousa? Como todos sabem, os donos de cachorro vivem em uma egotrip! Doze anos depois posso falar que a minha querida dra. Hannellore estava coberta de razão! Fomos para a entrevista de emprego para o voluntariado, Max e eu.

No minuto em que olhei para a dra. Hannellore e sua fiel escudeira, Bia Rebolo, senti-me em casa. Resumindo: Max e eu fomos aprovados, mas meus primeiros meses de voluntária seria sem meu companheiro canino. Ele, ao contrário de mim, já mostrou que seria um excelente voluntário. Eu tinha que ser testada em ação. Primeira visita, centro de hemodiálise infantil da Escola Paulista de Medicina. Estava tudo bem, eu segurando uma chinchila voluntária quando uma criança começou a urrar de dor – crianças que fazem hemodiálise têm diversos problemas com as veias e quando as agulhas escapam e têm que ser recolocadas, elas sentem muita dor. Deste momento, só lembro que acordei, tempos depois, do desmaio! Mas não desisti! Três meses se passaram, várias instituições foram visitadas e Max foi liberado para me acompanhar, ou melhor, a humana Stella foi liberada para acompanhar o Max.

Com o Max visitei asilos, hospitais, instituições voltadas para crianças com deficiência. Max, um adorável Bichon Frisee, mostrou-se um voluntário paciente e amoroso. Seus pelos macios foram acariciados por centenas de pessoas. Idosos abandonados em asilos se identificavam com os cabelos brancos do Max e com sua senioridade. Max foi até a um enterro de um senhor que o adorava. Ao chegar no cemitério, seus netos vieram correndo: olha o cachorro do vovô Moisés! O tempo passou e Max envelheceu. Já era um senhor de quase 14 anos e remoçava cada vez que me via com a camiseta amarela do projeto Pet Smile; enlouquecia quando eu pegava a sua bandana de voluntário e a bolsinha com biscoitos caninos. Se pudesse falar, Max falaria:

— Uau!!! Vamos de novo naquele lugar cheio de gente legal que adora me acariciar e me dar biscoitos!

Os idosos ou doentes, que na maioria das vezes eram considerados estorvos para seus familiares, para Max eram as melhores pessoas do mundo. E Max estava certo. Ele chegava no asilo correndo como um filhote. Em 2009, Max nos deixou aos 15 anos e meio. Infelizmente tive que sacrificá-lo. Max estava tão fraco, que não tinha forças para piscar. Os seus olhos se encheram de úlceras. Já não andava há semanas, não comia, mas parecia ter pena de me deixar. Liguei para a sábia dra. Hannellore.

— Stella querida, o Max fez o bem a tantas pessoas, devolveu o sorriso a tanta gente, deixe ele ir sem sofrer mais. Fique com ele até o final da eutanásia e fale para ele que você ficará bem. Vocês se encontrarão na Rainbows Bridge.

Foi o que fiz. Deixei Max ir. Max, como meu avô, estará sempre na minha alma, no meu coração e tatuado nas minhas costas. Sofri, nossos assistidos sofreram, minha família sofreu. O leitor deve ter diversas perguntas. Desisti do projeto Pet Smile? Comprei outro cachorro? Continuarei a distribuir o bem? E afinal, o que é a Rainbows Bridge? Não, não desisti do projeto! Minha vira-lata Fífi entrou em cena e se mostrou uma ótima voluntária – apesar de ser estabanada. Sim, comprei um outro cachorro idêntico ao Max, meu adorável Jack Daniels. Ao contrário de seu antecessor, não passou na seleção para cão terapeuta. Sim, continuarei a distribuir o bem, sempre!

E afinal, o que é a Rainbows Bridge? Mais uma que aprendi com a maravilhosa dra Hannellore Fuchs. Há uma lenda que diz que todos os cachorros quando morrem, atravessam uma linda ponte de arco-íris (rainbows bridge). Ao cruzarem a ponte, todos recuperam a saúde e a energia; passam a eternidade brincando em um vale maravilhoso, livres e saudáveis. Mas, de vez em quando, um destes cachorros para de brincar, começa a cheirar o ar, abana o rabo com força, sai correndo e atravessa a Rainbows Bridge. E lá, na ponta da ponte, recebe o seu dono. Juntos atravessam a Rainbows Bridge, onde passarão a eternidade juntos. Max, vai demorar, mas me espere amigão. Temos muito bem a fazer na eternidade.

Dedico este texto à dra. Hannellore Fuchs que, por meio do Pet Smile me mostrou que o meu amor pelos animais pode ajudar muitas pessoas. Doc, serei eternamente grata à sua generosidade, bondade e sabedoria. Agradeço também às mais de 20 mil pessoas assistidas pelo Pet Smile, que nos mostraram seus sorrisos nas situações mais adversas. Ao meu marido e filhos, que sempre me apoiaram e me acompanharam. Amo vocês mais que o Céu que o Max está agora. E Max, obrigada amigão! This one’s for you.

*Stella Kochen Susskind

Administradora de empresas graduada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e pós-graduada em Franchising pela Franchising University (Estados Unidos), Stella Kochen Susskind é pioneira no Brasil na avaliação do atendimento ao consumidor por meio do “Cliente Secreto®”.

A executiva preside a Shopper Experience e a divisão latino-americana da Mystery Shopping Providers Association; atua, ainda, como diretora da Mystery Shopping Providers Association Europe e é membro do Global Board. É autora do livro Cliente Secreto – a metodologia que revolucionou o atendimento ao consumidor, lançado pela Primavera Editorial

Projeto Pet Smile de Zooterapia. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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